Jogar não é o problema — o excesso e o impacto podem ser
Jogos eletrônicos fazem parte da vida de muitas pessoas e, em vários casos, são uma forma saudável de diversão. A questão não é “jogo é certo ou errado”, e sim: o jogo está ajudando ou está prejudicando a vida e o relacionamento? Quando o lazer começa a tomar o lugar de responsabilidades, acordos e presença afetiva, o casal costuma sentir o peso.
Às vezes, o jogo funciona como escape para estresse, ansiedade, frustração ou vazio. Nesses casos, o conflito do casal pode ser só a ponta do iceberg: por trás, existe uma tentativa (nem sempre consciente) de regular emoções.
Sinais de que “passou do ponto”
- Tempo crescente de jogo, com dificuldade de parar mesmo após combinados.
- Prejuízo no trabalho/estudo, sono, saúde, finanças ou organização da rotina.
- Mentiras e ocultação (“só mais 10 minutos”, escondendo gastos, horários ou atividades).
- Irritabilidade quando é interrompido(a) ou quando o parceiro pede presença.
- Distanciamento do casal: menos conversa, menos intimidade, menos colaboração.
- Conflitos recorrentes sobre o mesmo tema, sem mudança sustentável.
Como isso afeta o relacionamento
No casal, o excesso de jogo pode se traduzir em sensação de abandono, solidão, desrespeito e quebra de acordos. Quem está “do lado de fora” muitas vezes assume mais carga mental: casa, filhos, contas, demandas diárias. Com o tempo, surge ressentimento: “eu estou sozinha(o) nisso”.
Do outro lado, a pessoa que joga pode sentir cobrança, vergonha, defensividade e a sensação de que “nada do que eu faço é suficiente”. O ciclo vira uma disputa: um persegue, o outro foge — e a conexão enfraquece.
Terapia de casal pode ajudar?
Em muitos casos, sim — especialmente quando o casal quer interromper o ciclo e construir acordos mais claros. A terapia de casal pode ajudar a:
- Entender o que o jogo está “cumprindo” emocionalmente (escape, alívio, pertença, reconhecimento).
- Negociar acordos realistas (horários, prioridades, tarefas, tempo do casal, finanças).
- Reparar confiança quando houve mentiras e quebra de combinados.
- Fortalecer comunicação sem ataque/defesa, com pedidos e limites mais claros.
Ao mesmo tempo, pode ser necessário apoio individual, especialmente se houver sintomas de ansiedade/depressão, compulsões, dificuldades de regulação emocional ou uso do jogo como anestesia. Terapia de casal e individual podem se complementar.
Um começo prático: 3 acordos simples
Sem rigidez — com clareza
- Tempo do casal: definir blocos de presença (sem telas) para conversar e estar junto.
- Rotina primeiro: combinar prioridades (sono, tarefas, filhos, trabalho) antes do jogo.
- Transparência: alinhar gastos e horários, evitando “jogo escondido” e ressentimento.
Se o casal tenta repetidamente e não consegue sustentar mudanças, isso não significa “fracasso”. Significa que o padrão está forte e pode precisar de suporte para ser compreendido e transformado.